SANTA TRIZTEZINHA: UMA TERRA SEM LEIS
Onze de Abril de 2004. Sábado de Aleluia. A noite prometia muito, afinal, após uma depressiva sexta-feira Santa, muitos, inclusive eu, aguardavam ansiosamente a festa que ocorreria no point da cidade, o Pitt Bull (estrangeirismo a parte).
Mas... Antes de descrever os fatos, creio na necessidade de fazer uma pergunta aos leitores. O Brasil ainda é um país comandado por coronéis?
A festa
Cheguei ao Pitt Bull por volta da meia-noite, um pouco tarde para os padrões terezinhenses, e logo senti que algo não cheirava bem. Sinceramente, sei que é ridículo, mas basta analisar o contexto pra perceber. Quaresma. Semana Santa. Sábado de Aleluia. Era hora de se libertar, recuperar o "tempo perdido". Carne, álcool, entre outras coisas... Tudo em excesso. Então...
A primeira briga aconteceu enquanto eu saboreava a primeira golada na minha primeira cerveja (por sinal, bem gelada). Assisti a tudo de camarote, e se não fosse ligeiro em meus passos, poderia ter levado alguns socos e pontapés de graça. Mesmo assim levei alguns empurrões. Coisa de moleque, como disseram muitos dos presentes, mas que foi feio, foi. Até a polícia aparecer para controlar os ânimos, alguém já tinha se machucado, ou tinha machucado alguém, sei lá. Não me lembro quantos foram presos, e se alguém fora, mas vi os policiais conduzindo alguns indivíduos para a viatura.
O fato me desanimou completamente. A música parou, e todos comentavam o caso, mesmo que sequer tenham visto, já que muitos correram para a rua durante a confusão. Uma pena eu não ter tido essa sorte.
A festa podia ter terminado ali, mas não. Após alguns minutos, tudo voltara ao normal. A música voltou a tocar sob o comando dos "Dj´s automotivos" (nada mais brega e estúpido e de mau gosto, mas...) e as pessoas voltaram a dançar, a beber, enfim, esqueceram do ocorrido.
Algum tempo depois, não sei quanto, mas quando tudo parecia estar bem, outra confusão. Dessa vez, neguei-me procurar o foco da mesma. O som parou novamente, e a polícia mais uma vez entrou em cena. Lembro-me de ter comentado com um policial. Na verdade fiz um pedido: Creio que vocês deveriam ficar por aqui até o final da festa. Não me lembro se o policial disse-me algo, mas posso afirmar que os vi por ali em seguida.
Bom... Tudo voltara ao normal novamente. A festa continuara e parecia que nada havia acontecido. Passado algum tempo... (tá parecendo estórias infantis!!?!!) E mais uma confusão. Desta vez, um pouco mais tranqüila. Se é que existe confusão tranqüila. Mas o fato é que as coisas tomaram outra proporção. E finalmente, a polícia resolveu intervir de maneira inteligente. Com a presença do jovem e mais recente delegado da cidade, a festa tinha hora pra acabar, e parecia que realmente ia acabar, mas...
E agora eu pergunto novamente. À mim e aos poucos leitores deste artigo: O Brasil ainda é um país comandado por coronéis? E ainda mais. Quem é a maior autoridade de um município? Para responder, descreverei os fatos que presenciei atentamente.
Após a interferência do jovem delegado, que proibira a continuação da festa, o vereador e também filho do prefeito de Santa Terezinha de Goiás, o qual não preciso citar o nome(para quem não o conhece, o nome é Paulo Henrique Portes), resolveu tomar uma atitude.
Os dois, o jovem delegado e o vereador e filho do prefeito (vale a pena frisar), encaminharam-se para o lado do bar e começaram a trocar desaforos. Pelo menos foi o que pude presenciar e perceber. Lembro-me perfeitamente das palavras do vereador e filho do prefeito ao delegado: "O Senhor está errado!!! O Senhor está errado!!! O Senhor não precisava acabar coma festa..."
E o delegado respondia: "Se você acha que eu estou errado, vá reclamar com o meu conselho!!! E citou desnecessariamente naquele momento, o problema do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, como referência para a ocorrência em Santa Terezinha, e desculpa, para o uso da força. Já que o jovem delegado havia, segundo o vereador e filho do prefeito, digamos, dado uns solavancos em um menino que nem sei quem é, nem muito menos assisti o fato citado pelo vereador e filho do prefeito.
E entres outras trocas de gentileza, o jovem delegado percebeu que ao seu redor, várias pessoas acompanhavam a discussão. Então indagou com um ar autoritário e u tanto quanto educado: Isso aqui não é um comício não, gente.!. Vamos dar licença, por favor. E eles foram para outro lado terminar a conversa.
Durante a discussão, podia-se ouvir as vaias por parte dos presentes, direcionadas ao jovem delegado. Realmente parecia um palanque. Mas de um lado, a maior autoridade da cidade, o jovem delegado. E do outro, o que acredita ser a maior, o vereador e filho do prefeito. Nesse caso acertou o jovem delegado de chamar aquilo de comício. Já que o vereador e filho do prefeito fazia sua políticagem.
"Eu sou político. Tenho que defender o povo." Foi uma das últimas frases que pude escutar, antes de tecer outro comentário com o policial que estava ao meu lado assistindo a tudo: "Isso é desacato a autoridade. O delegado tinha que dar voz de prisão ao vereador." O policial concordou comigo, mas nada podia fazer, afinal, era o vereador e filho do prefeito e ele, um mero soldado da policia militar.
Não sei como e nem por quê, embora possa crer... Mas a festa ainda continuou. E novamente o som automotivo ditava o ritmo da festa. Não se via mais, nem o jovem delegado, nem qualquer policial. Ou pelo menos eu e meus óculos não viram.
Após os emocionantes fatos, evadi-me do local, completamente arrependido de ter ido a tal festa.
Pensem consigo mesmos caros leitores. Quem é a autoridade máxima de um município? Qual a função de um vereador? Pela primeira vez na minha vida senti-me humilhado. Humilhado em ver aquela situação. Um mero vereador abusando irresponsavelmente de seu poder, se é que tenha algum. E um delegado, sinceramente, se acovardando diante parte da população da cidade. É muita humilhação para um mero mortal.
Poderia ter o delegado, se calado diante tais fatos? Onde estão as leis? Pra que elas servem? Ainda existe coronelismo no Brasil? Que me desculpem todos os que apoiavam o vereador e filho do prefeito, para a continuação da festa. Mas em um lugar onde portar armas é algo indiscriminado, a festa teria que ter acabado de qualquer maneira. Após uma seqüência de 3 assassinatos nos últimos meses, nada mais lógico e responsável, já que os ânimos estavam bem aflorados.
Vivemos em um país democrático, e, por incrível que pareça, temos liberdade de expressão (Em alguns momentos...). Mas casos como esses nos remetem aos tempos de nossos avós, quando ainda existiam os coronéis, que eram as verdadeiras autoridades de uma cidade. Pode um vereador estar acima de um policial, ou melhor, de um delegado? É pra isso que vocês votam, caros eleitores?
Pensem bem. As eleições estão chegando. Não quero através deste artigo, condenar o desempenho do vereador e filho do prefeito, diante suas responsabilidades como representante direto do povo na Câmara Municipal, eleito democraticamente. Até porque, estou afastado desta cidade há alguns anos. E nem quero mais discutir, se deveria ou não, continuar a festa.
Mas não posso concordar que o lugar do qual tenho orgulho de ter vivido, feito amigos e de ter deixado uma história que, por mais irrelevante que ela seja para muitos, não para mim, tenha políticos que não sabem qual, realmente é, sua função dentro da sociedade e dentro dos órgãos políticos do Estado.
Depois alguns me criticam por dizer: Santa Triztezinha de Goiás.
Indignado e Envergonhado, Marcos Belucci
Ps. Esta simples crônica, contra minha vontade, não foi publicada no jornal da cidade de Santa Terezinha de Goiás, para evitar problemas com as autoridades do município goiano. Mas muitas pessoas, inclusive os envolvidos, acabaram tendo acesso por outros meios.